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03
Fev09

O SISMO DE 1755 CONTADO PELOS OSSOS DAS VÍTIMAS

bomsensoamiguinhos

 

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Segunda, 2 de Fevereiro de 2009
Edição Papel

 

 

O SISMO DE 1755

CONTADO PELOS OSSOS DAS VÍTIMAS

 

 

 

PEDRO SOUSA TAVARES

 

 

Ciência.

Assassínios, provas de canibalismo, marcas da violência dos desmoronamentos, incêndios e tsunamis.

Desde 2004, uma equipa de investigadores portugueses vem revelando os segredos do primeiro ossuário conhecido das vítimas do terramoto de Lisboa. Já ganharam prémios internacionais, mas continuam a trabalhar de graça e sem apoios

 

Durante alguns minutos de terror, o assassino golpeou-lhe repetidamente o crânio, sem a matar, para que falasse. Procurava ouro e prata, ou alimentos escondidos, igualmente valiosos nos dias de anarquia que se seguiram àquela manhã de 1 de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos.

Talvez tenham ouvido os seus gritos, antes do golpe na fronte que lhe acabou com a vida aos trinta e poucos anos. Mas, depois do terramoto, das ondas de seis metros que varreram a zona ribeirinha, e das chamas que consumiram grande parte de Lisboa, quem não morrera ou fugira já só pensava na própria sobrevivência.

A história da sua morte violenta teria sido apagada sem rasto. Tal como a de muitos outros crânios com sinais evidentes de agressão, incluindo, num caso, uma marca de bala esférica. Ou ainda a surpreendente revelação de um fémur com cuidadosos cortes de uma grande faca, prova "irrefutável" de que a fome levou alguns ao recurso extremo do canibalismo.

Mas uma improvável soma de coincidências ditou que o primeiro ossoário conhecido de vítimas do terramoto surgisse na Academia de Ciências, instalada desde 1836 no Convento franciscano de Nossa Senhora de Jesus. E que fosse alguém capaz de perceber a sua importância a fazer o achado.

Em Junho de 2004, Miguel Telles Antunes, director do museu da Academia, inspeccionava as obras de remoção de paredes e do chão de cimento numa das alas do claustro, onde funcionara uma biblioteca, quando algo atraiu o seu olhar. Do solo, emergia parte de uma caveira. "Literalmente tropecei nela. Ia-lhe dando um pontapé sem querer", confessa o paleontólogo.

"Naquele claustro existem várias sepulturas, lembra. "Encontrar uma caveira era normal. O que me alertou foram os restos de um peixe de tamanho razoável, que estava ao seu lado. Uma situação muito invulgar."

Uma equipa de voluntários

As obras foram interrompidas.Pelo telefone, Telles Antunes pediu ajuda a José Luís Cardoso, professor catedrático da Universidade Aberta. "No dia seguinte fui ao local e verifiquei imediatamente a importância do achado", explica o arqueólogo. Com a autorização do (já extinto) Instituto Português de Arqueologia e um "pequeno subsídio" da Fundação Gulbenkian - o único apoio até à data -, começaram meses de escavações, enquantoTelles Antunes recrutava investigadores entre os seus contactos.

Misturados com terra e restos de animais, dispersos alguns centímetros acima de sepulturas anteriores, ossos dispersos de centenas ou mesmo milhares de indivíduos assemelhavam-se mais a montes de entulho do que a materiais de interesse científico. Mas o que estas sepulturas colectivas revelaram e continuam a revelar ultrapassa tudo o que se conhecia sobre a época.

"Sabemos que houve violência, enquanto não foi possível restaurar a ordem, com o recurso a julgamentos sumários e mais de 40 enforcamentos", diz Telles Antunes. "Mas os ossos contam as suas próprias histórias. Hoje a descarnação e o canibalismo compreendem-se perfeitamente num contexto de fome. Mas quem é que ia falar em canibalismo na época? Seria uma vergonha para o País."

Através dos ossos confirmou-se também a violência dos elementos, com crânios literalmente rebentados por temperaturas que terão chegado aos mil graus. Para a investigadora Cristiana Pereira, abriu-se ainda uma janela sobre as doenças, as carências, o quotidiano de toda uma geração que viveu há 250 anos (ver texto em baixo) .

Outros objectos, como cerâmicas, restos de vestuário, amuletos, medalhas e moedas - algumas, de prata, com alterações cloretadas, sugestivas de que os corpos poderão ter estado em contacto com água salgada - foram analisados pelo cónego Manuel Lourenço, da Chancelaria do Patriarcado de Lisboa, dando importantes pistas sobre a sociedade da época.

E tudo isto, lembra José Luís Cardoso, é fruto de uma escavação que abrangeu apenas "metade da ala sul" do claustro. "Temos razões para acreditar que a ala este também poderá ter sido usada para depositar restos humanos", diz o arquéologo, que confessa que um dia, "se surgissem os apoios", gostaria de retomar os trabalhos.

Para já, a muito adiada publicação de uma obra sobra os resultados da investigação, a aguardar melhor atenção pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, já seria recompensa suficiente para os investigadores.|

 

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